As Olimpíadas e a corrida pela glória

Publicado por Eduardo Kormives em agosto 16, 2016 Cultura | Pastorais | Tags:, , , | Sem comentários

Se você se vibrou ao assistir Usain Bolt tornar-se o maior velocista olímpico da história, sugiro que baixe ou alugue um dos meus filmes preferidos de todos os tempos: Carruagens de fogo (1981), do diretor Hugh Hudson. Vencedor de quatro Oscars, incluindo o de melhor filme do ano, a película narra a trajetória dos velocistas britânicos Eric Liddell e Harold Abrahams nas Olimpíadas de Paris-1924.

Carruagens de fogo tem uma abertura espetacular ao som da trilha sonora composta pelo grego Vangelis, imortalizada na história do cinema e ligada às corridas para sempre. Mas o filme vai muito além da qualidade técnica. Com bastante habilidade, Hudson usa a pista de atletismo para por lado a lado duas visões de mundo completamente diferentes. Abrahams e Lidell são ambos velocistas com talento natural indiscutível, mas parecem dispostos a realizar os mesmos sacrifícios pela glória.

“Cada um corre à sua maneira. Mas de onde vem a força que conduz ao fim da disputa?”, pergunta Lidell. Apelidado de escocês voador, ele era um cristão filho de missionários que via no esporte um meio para fazer Deus conhecido. Abrahams, por sua vez, um judeu bem-nascido, enxergava um fim na medalha: derrotar o preconceito e ser aceito entre seus pares da elite britânica como um igual.

Lidell chocou o mundo esportivo e sua própria delegação ao desistir da disputa dos 100m rasos porque as eliminatórias seriam disputadas num domingo, o Dia do Senhor – ele acabaria correndo os 400m. Abrahams, que na olimpíada anterior não havia chegado às finais, recorre a um treinador profissional, decisão eticamente discutível numa época em que o espírito cultivava um espírito amador, no sentido estrito da palavra.

Não vou contar o final de Carruagens de Fogo, para não estragar a diversão. Mas vou contar o que ocorreu depois dos Jogos de Paris-1924. Abrahams teve uma carreira de sucesso. Foi advogado e comentarista esportivo da BBC Radio por mais de 40 anos, e morreu em 1978, aos 78 anos. Liddell desapareceu dos holofotes no auge da fama. Voltou à Universidade de Edimburgo, onde se formou bacharel em ciências puras. Maior esportista da história da Escócia, decidiu tornar-se missionário no Norte da China, seguindo os passos dos pais. No dia em que embarcou para a viagem, foi acompanhado por uma multidão nas ruas de Ebimburgo, que cantava “Ele é um bom camarada.”

Lidell anunciou a boa notícia do Evangelho nas cidades de Tianjin e Siaochang, entre 1925 e 1943. Ordenou-se pastor, casou e teve três filhas. Com a região ocupava pelo exército japonês na Segunda Guerra Mundial, enviou a família para o Canadá em 1941. Dois anos depois, Lidell seria levado pelos japoneses no acampamento de internação Weihsien, onde cuidaria de idosos, ensinaria a Bíblia e ciências e organizaria jogos para as crianças.

Envolvido numa troca de prisioneiros negociada pelo primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, preferiu dar seu lugar a uma mulher grávida. Morreu em 21 de fevereiro de 1945, a cinco meses do fim da guerra, acometido por um tumor cerebral e febre tifóide. “Eu creio que Deus me fez para um propósito. Mas ele também me fez veloz, e quando eu corro, eu sinto seu prazer” é uma das frases mais marcantes do filme. Talvez seja essa a mensagem principal do filme: o prazer que Deus sente em nós e que nós igualmente sentimos quando nos tornamos os seres humanos que podemos ser.

Anos depois da Guerra, Stephen Metcalfe, outro prisioneiro em Weihsien, escreveu o seguinte sobre Liddell: “Ele deu-me duas coisas: a primeira foram seus desgastados tênis de corrida, mas a melhor coisa que ele me deu foi a batuta do perdão. Ele me ensinou a amar os meus inimigos, os japoneses, e orar por eles”.

Impossível não lembrar das palavras do apóstolo Paulo, que recorre às corridas em 1ª Coríntios 9:24-27 para tratar de um prêmio maior.

Vocês sabem que numa corrida, embora todos os corredores tomem parte, somente um ganha o prêmio. Portanto, corram de tal maneira que ganhem o prêmio. Todo atleta que está treinando aguenta exercícios duros porque quer receber uma coroa de folhas de louro, uma coroa que, aliás, não dura muito. Mas nós queremos receber uma coroa que dura para sempre. Por isso corro direto para a linha final.

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