O furacão Nina Simone

Publicado por Jadson Fernandes Luz em julho 29, 2015 Blog | Cultura | Tags:, , , , , | Sem comentários

Em junho, o Netflix Brasil incluiu no seu catálogo o documentário What Happened, Miss Simone?, que narra a trajetória da lendária cantora, pianista e ativista americana Nina Simone. Dirigido por Liz Garbus, o filme me surpreendeu quanto ao retrato do preconceito racial da década de 1960 nos EUA.

O que me fez admirar Nina foi a maneira que ela encontrou para confrontar a questão racial, ainda hoje um nervo exposto na sociedade americana. Com talento e ousadia, ela escreveu músicas históricas, que mexeram com os que ofendiam e os ofendidos – tudo isso ao mesmo tempo.

Nossa geração parece se incomodar com problemas que afetam a sociedade hoje, como corrupção e preconceito, mas raramente toma uma postura real quanto a isso. Tudo nasce e morre nas redes sociais. Na época da Nina Simone, não existiam mídias sociais e muito menos internet. Nem por isso ela ficou indiferente aos problemas sociais diante de seus olhos. E pagou o preço por isso.

Óbvio que quando a americana começou a agir e mostrou o seu lado ativista, prejudicou a sua carreira musical. As casas de show começaram a ignorar o fenômeno Nina Simone, e aos poucos todo o brilho da artista foi se apagando.
Com a carreira em decadência, Nina decidiu mudar de vida. Mudou-se para a África, deixando família e tudo o que construiu nos EUA. Por lá ficou até o dinheiro acabar. Posteriormente viveu na Europa, onde recuperou o sucesso e dinheiro.

É claro que as músicas que incendiaram os conflitos raciais da década de 1960 permaneceram no repertório dela. E por incrível que pareça as pessoas, brancas e negras, aplaudiam de pé cada concerto. Como se cada palma dissesse: você foi uma guerreira, um exemplo, admiramos você. As palmas cessaram em 2003, quando Nina morreu de câncer aos 69 anos. Seu legado segue mais vivo do que nunca, como comprova a receptividade do documentário em festivais e no Netflix.

Dona de uma voz inconfundível, seja nos discos, seja na defesa de valores e posições políticas, Nina Simone ainda tem muito o que dizer. Como diria a própria artista em entrevista incluída no filme: “Eu escolhi refletir o tempo e as situações em que me encontro. Como ser artista e não refletir a época?”.

Descubra mais sobre Nina

Uma das canções mais marcantes da ativista chama-se Mississippi Goddam – escrita na década de 1960, depois de a organização racista Ku Klux Klan jogar uma bomba dentro de uma igreja e matar quatro crianças negras. A canção se transformou rapidamente em um hino contra a segregação racional. Um trecho da música:

“Filas de grevistas/Escola de boicotes/Eles tentam dizer que é uma conspiração comunista/Tudo que eu quero é a igualdade/Para minha irmã, meu irmão, meu povo e pra mim”

Em 1969, em entrevista à Ebony Magazine, Nina afirmou: “Espero que chegue o dia em que eu serei capaz de cantar mais músicas de amor, quando a necessidade de cantar músicas de protesto não será tão urgente”. Será que chegou esse tempo?

Vale o play

Além do documentário, o álbum Nina Revisited… A Tribute To Nina Simone foi lançado este ano. Um baita disco pra quem quer conhecer mais a artista. Cantores como Lauryn Hill e Usher contribuem para o disco. Ouça:

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