Natal é Repartir: a diferença entre caridade e generosidade

Publicado por Eduardo Kormives em dezembro 3, 2014 Blog | Pastorais | Tags:, , , , , , , , , | Sem comentários

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Eduardo Kormives

As portas do vagão se abriram e um senhor de bigode, beirando os 60 anos, entrou no metrô. Antes que eu desviasse meus olhos do livro, o homem já contava as suas desventuras para a plateia de passageiros entretida com seus fones de ouvido, revistas e bocejos.

Até tentei continuar a leitura, mas fui logo fisgado pela história. Tanto aquele senhor quanto eu havíamos nos mudado para Brasília por causa de trabalho. A diferença é que, agora, eu voltava para casa depois do expediente enquanto ele, por algum motivo, não tinha um tostão no bolso nem emprego.

O homem explicou a razão: deixara a família em Recife, 2,2 mil quilômetros distante, confiando na promessa de trabalho garantido com carteira assinada por um ano e meio, o suficiente para obter a aposentadoria por tempo de serviço. Mas a oferta de emprego ficou só na promessa e seria necessário contar com a ajuda alheia para bancar a passagem de ônibus de volta.

Sempre acreditei que apenas dois tipos de pessoa têm coragem de pedir dinheiro assim em público: picaretas e desesperados. Como me parecia claramente o segundo caso, eu e outros passageiros do vagão resolvemos ajudá-lo.

Mas daí me vi num dilema. Só tinha uma nota de 20 reais na carteira (e, acredite, elas são muito raras lá). Nenhum troco, nenhuma moedinha. Era dar os 20 ou nada.

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Conto esta história porque ela me ajuda a ilustrar algo que eu demorei a perceber: caridade e generosidade são coisas bem diferentes. A caridade, embora importante numa sociedade tão desigual, envolve exatamente o cálculo que fiz naquele dia: quanto eu posso dar para alguém necessitado sem comprometer o meu próprio conforto?

O MC2 já fez várias ações de fim de ano. Mas em 2014 resolvemos fazer algo que envolvesse todas as nossas comunidades e nos ajudasse a ir além da caridade. O que a gente quer é entender melhor o que é ser generoso, entendendo que a generosidade é uma da marca na vida de quem experimentou a graça divina.

O Natal é Repartir é feito para o outro, mas não aquele outro que a maioria das pessoas costuma ter em mente no Natal. Que ótimo que tantas crianças desamparadas e doentes receberão visitas e presentes. Nossa preocupação é que o pessoal que cuida deles também seja igualmente lembrado.

Inúmeros poetas fizeram versos sobre o amor ao longo da história. Nenhum deles chega aos pés deste trecho de uma das cartas do apóstolo Paulo à igreja de Corinto, um texto bíblico que gostamos de citar ao falar de generosidade e caridade.

Eu poderia falar todas as línguas que são faladas na terra e até no céu, mas, se não tivesse amor, as minhas palavras seriam como o som de um gongo ou como o barulho de um sino.

Poderia ter o dom de anunciar mensagens de Deus, ter todo o conhecimento, entender todos os segredos e ter tanta fé, que até poderia tirar as montanhas do seu lugar, mas, se não tivesse amor, eu não seria nada.

Poderia dar tudo o que tenho e até mesmo entregar o meu corpo para ser queimado, mas, se eu não tivesse amor, isso não me adiantaria nada. (1 Coríntios 13:1-3)

A questão é que cantar sobre amor, falar sobre amor ou discutir o que é amor não muda a vida de ninguém. É como “o barulho de um sino”. Além do próprio Paulo, o apóstolo João se encarregou de transformar poesia em algo palpável.

Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações. (1 João 3:18)

O amor exige ações que deem significado às palavras. Mas João vai além: ressalta que o amor a Deus e o amor às pessoas ao nosso redor andam necessariamente de mãos dadas.

Nós amamos porque Deus nos amou primeiro. Se alguém diz: “Eu amo a Deus”, mas odeia o seu irmão, é mentiroso. Pois ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a quem vê. (1 João 4:19-20)

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Voltemos à história do metrô. Talvez você esteja curioso sobre o que eu fiz com a nota de 20 reais. Isso eu não conto. O que eu posso contar é que descobri que caridade e generosidade não são a mesma coisa e que isso fez muita diferença na maneira como administro meu tempo, talentos, habilidades e dons.

Caridade é dar aquilo que nos sobra. Generosidade, aquilo que os outros precisam.

A caridade abre espaço no nosso guarda-roupa. A generosidade, espaço na nossa vida para outras pessoas.

A caridade tira um peso na consciência. A generosidade nos ensina a dar um peso diferente para pessoas e coisas.

A caridade distribui coisas. A generosidade compartilha vida.

Nas muitas oportunidades de servir que o MC2 propiciou este ano, seja em campanhas de arrecadação, trabalho voluntário ou edições do Amar é Repartir, constatamos que grupo de pessoas envolvidas ainda é pequeno em relação ao número de frequentadores.

O Natal é Repartir é uma excelente chance de descobrir porque Jesus afirmou que “é mais feliz quem dá do que quem recebe” (Atos 20:35).

Servir ajuda a gente a enxergar algo além do nosso próprio umbigo. A colocar em perspectiva os nossos problemas (será que são tão grandes assim?) e a abrir espaço para relacionamentos reais em que Deus possa agir e revelar a sua presença.

O que significa que não dá para terceirizar a generosidade. Você precisa estar lá para acolher, chorar, rir, compartilhar, desfrutar, oferecer, receber. Que tal aprendermos juntos a ter uma vida generosa?

O que faremos

 
O foco das nossas ações será realizar o máximo de ações que chamamos de Amar é Repartir. Nós entramos em contato com entidades e profissionais variados (professores, cuidadores, profissionais de saúde, lixeiros etc), montamos uma mesa de café caprichada, oferecemos uma oração e então apenas servimos e ficamos por perto.

O que importa aqui é servir quem serve. Talvez você esteja pensando: como é que um café pode ser um ato de generosidade? Bom, o café é o de menos. Nós oferecemos o nosso tempo e algo que todo ser humano busca: um sinal de reconhecimento de que seu trabalho é importante e faz diferença na vida de outras pessoas. Ou como disse Jesus:

Façam aos outros o que querem que eles façam a vocês; pois isso é o que querem dizer a Lei de Moisés e os ensinamentos dos Profetas. (Mateus 7:12)

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